Com o advento dos veículos elétricos, poderíamos pensar que a poluição sonora gerada pelos automóveis está prestes a ser resolvida. No entanto, 80% do ruído de um carro é causado pelo seu contacto com a estrada, sendo que o mau estado de uma estrada aumenta exponencialmente essa poluição sonora, tanto no interior como no exterior do veículo. Foi com base nesta constatação que Thomas Antoine, Expert Leader Noise & Vibration Technology no Renault Group, desenvolveu o programa Apache, que consiste em mapear o estado das estradas para sinalizar os locais onde uma reparação seria mais benéfica. Em termos de poluição sonora, evidentemente, mas também de economia e saúde pública. Thomas Antoine e Fadila Hrird, estudante de mestrado em geomática aplicada aos estudos urbanos e aos riscos na CY Cergy Paris Université, explicam-nos como funciona esta tecnologia, a sua metodologia de trabalho e descrevem os inúmeros benefícios esperados.
Por Gonzague REQUILLART
Para Thomas Antoine, especialista e líder em Tecnologia de Ruído e Vibração no Renault Group desde 2018, a constatação é inequívoca: a poluição sonora é um problema social e ambiental de primeira importância que ele decidiu combater através do seu trabalho e da sua experiência. Os números falam por si: segundo a Organização Mundial de Saúde, 20 milhões de europeus queixam-se do ruído e 8 milhões têm dificuldades em dormir. Por sua vez, a Ademe, a Agência para a Transição Ecológica, destaca o custo social do ruído rodoviário em França, estimado em 80 mil milhões de euros por ano em 2021.
Para combater a poluição sonora a bordo dos veículos (nomeadamente ruídos de rodagem e do ar), os fabricantes automóveis recorrem cada vez mais a uma tecnologia muito comum nos auscultadores: o controlo ativo do som. Este controlo ativo é ativado através de sensores acústicos colocados à volta do veículo, que captam os ruídos da estrada e detetam as variações de ruído por ela provocadas. Quando o ruído aumenta, os sensores emitem uma onda sonora no habitáculo que suaviza o espectro sonoro no veículo, de modo a anular o ruído que os passageiros ouvem e tornar a viagem a bordo muito mais agradável. Um fabricante como o Renault Group poderia ficar por aí, mas a cultura de inovação que tanto valoriza leva os seus engenheiros a ir mais além.
O sensor Apache é uma prova da nossa criatividade. O problema do ruído no ambiente não se resume apenas ao tipo de carro e aos pneus. Trata-se da interação do carro com o ambiente.
O programa Apache, ou como mapear o estado das estradas
Foi ao estudar os sensores de controlo ativo que Thomas Antoine se questionou se não seria possível utilizar de outra forma os sinais que estes geram. Foi assim que surgiu a ideia do programa Apache. O Apache, ou Auscultação do Perfil Acústico das Pavimentações e da sua Eficiência Energética, é uma caixa que analisa a estrada, tal como a agulha de um gira-discos, e permite criar mapas do estado acústico da rede rodoviária. Estes dados são depois compilados para fornecer uma análise muito precisa dos locais onde uma estrada está particularmente degradada e, por isso, ruidosa. «É uma tecnologia que não só melhora a acústica no interior dos nossos veículos, mas que também permite às autarquias tomar decisões mais acertadas relativamente aos seus orçamentos de reparação de estradas. Por isso, na verdade, todos ficam a ganhar», explica Thomas Antoine
Para elaborar mapas mais completos, Thomas recorreu a Fadila Hrird, uma geomática que ingressou no Renault Group num programa de formação em alternância, no âmbito dos seus estudos na CY Cergy Paris Université. Fadila utiliza um programa específico para elaborar mapas com camadas de informações diversas, como a proximidade de locais sensíveis (escolas, hospitais, lares de idosos, etc.), a fim de determinar o nível de impacto que uma estrada pode ter sobre os residentes locais.
Recebemos uma quantidade enorme de dados graças a estes sensores, mas o que importa agora é transformá-los em informações úteis. Para que estes mapas possam ser correlacionados com a utilização das estradas, precisamos de dados sobre o tráfego, e é aí que a nossa parceria com a Bruitparif se revela muito útil.
Parceria com a BruitParif: a chave para oferecer um serviço completo
Desde o início do projeto, Thomas Antoine percebeu que esta análise detalhada do estado das estradas poderia ser de grande ajuda para as cidades e autarquias, para quem a estratégia de reabilitação é um desafio importante e representa uma parte significativa do seu orçamento. Assim, poderão identificar com grande precisão os troços de estrada que necessitam de reparação. Mas para que esta análise fosse completa, faltava um elemento essencial: o tráfego. Este dado é crucial, pois permite determinar a velocidade a que uma estrada se degrada e em que medida gera poluição sonora.
Foi assim que Thomas Antoine contactou a Bruitparif, o Observatório do Ruído da região da Île-de-France, que procurava precisamente obter mais informações sobre o estado acústico das faixas de rodagem. A Bruitparif aderiu rapidamente ao projeto, fornecendo os dados necessários e facilitando um programa de testes no território de Saint-Quentin-en-Yvelines. Foi um sucesso e o programa está hoje alargado a toda a Île-de-France, com cerca de trinta veículos equipados com a unidade Apache a percorrer as estradas da região. O projeto recebeu agora manifestações de interesse de várias cidades em França e no estrangeiro. O programa Apache é uma inovação patenteada pelo Renault Group e premiada pelo Conselho Nacional do Ruído com um «Décibel d’Or», prémio que não era atribuído a um fabricante automóvel desde... o Vel Satis da Renault em 2001!
A relação entre o ruído e o consumo energético: o dado essencial
As análises aprofundadas de Thomas e Fadila confirmaram que existe, de facto, uma relação direta entre o ruído e as emissões deCO₂ oua autonomia dos veículos elétricos. O programa Apache consegue assim calcular com precisão os custos e as poupanças ambientais associados à reabilitação das estradas e até mesmo em quantos dias o custo das obras de reabilitação é compensado por uma redução das emissões. A Bruitparif calculou assim que 1 euro investido na estrada representava uma poupança de 17 a 20 euros no custo social do ruído. Para dar um exemplo concreto, a reabilitação do anel viário de Paris, a estrada mais movimentada da Europa, reduziria o nível de ruído para cerca de um quarto e tornar-se-ia uma operação «carbono neutro» após 3,5 anos, devido a uma redução anual de 16 000 toneladas de CO2. Para Thomas Antoine, este projeto é motivo de orgulho e uma verdadeira viragem a nível profissional. Ao interessar-se por áreas não tradicionais no setor automóvel, é possível criar novas cadeias de valor para o Renault Group. Quanto a Fadila Hrird, que representa uma nova geração de engenheiros que compreendeu que a tecnologia pode resolver concretamente problemas relacionados com o ambiente, aguarda agora com impaciência novas aplicaçõesde inteligência artificial para processar uma quantidade de dados cada vez maior, o que conferirá a projetos como o Apache uma relevância cada vez maior.